Posteridade

Caríssimo leitor! Cá estou, nu, para nossa comunhão. Multiplicar-se. Qual o sentido de tudo, se não este? Para que acordamos, caçamos, lutamos, se não para espalhar nosso pólen? No cortejo, no coito, contando histórias, construindo memórias, polenizamos.

Sem pétalas nem pólen, posto letras. Vossa leitura ocupa o vão que guardei para um amor que não veio. As palavras são filhas da esterilidade. São as que tenho.

milagras

Onda sim, onda não, a cada leva, em cada volta, este mar quer se precipitar. Pois venham, que eu já não comporto mais. Desertem este coração que derrete, desfaz-se em líquido.

Transbordem, gotas do bem, que vêm lavar estes olhos cansados de desencontroLevem embora a sujeira que tinge de cinza, que embaça a vista, pinta tudo em incolor desencanto. Sejam colírio, lavem a dor, tragam a cor.

Compressem sob as pálpebras a salmoura, diluam os grãos de areia que ardem, secam e enchem a vista de deserto. Venham aliviar este ardor que já não me deixava mais acreditar no amor.

Amoureux

Quando a ausência de uma única pessoa transforma a companhia de todas as outras em solidão, amigo, você está apaixonado.

Aprender = desaprender

Na época da escola, pensávamos que o conhecimento se acumulava mais e mais, bastando buscá-lo. Acreditávamos que, com esforço, restariam cada vez menos dúvidas sobre a vida. Até que descobrimos que o saber não leva para a frente - embora leve sempre a algum lugar.

Para aprender algo novo, é preciso esquecer algo velho. Não por faltar espaço na cabeça, mas por coerência. Para aprender que "mais vale um pássaro na mão que dois voando", há de esquecer que "quem não arrisca não petisca". Para saber que o acaso é amigo, não se pode saber que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Quando uma criança aprende que chocolate se chama chocolate, ela desaprende aquela coisa indefinida que derrete, se espalha pela pele e gruda na boca. Agora é só chocolate.

Aprender não é avançar, é apenas caminhar. Todo dia aprendo e desaprendo. Vou escolhendo.

O trepa-trepa assassino


Eu tinha cinco anos, mas me lembro perfeitamente. Foi no parquinho da escola. A Tia Lúcia, minha professora loira e magra, chamou de longe:
- Vem, Douglas, brincar no trepa-trepa! Só você ainda não veio!

Claro que não. Só de olhar para aquele brinquedo assassino eu sentia um pavor que dava dor de barriga.
- Ah... não to com vontade!, menti.
- É fácil! Eu te ajudo, não precisa ter medo.

Toda a classe me olhava. E, na minha cabeça, se acabavam de rir.
- Eu não tenho medo não! Mas... não to com vontade.
- Ah, vem! Você consegue!

Exposto pela Tia, percebi que quanto mais resistisse, mais seria ridicularizado. O negócio era acabar com aquilo de uma vez. Julguei que seria mais fácil cruzar por cima. Dependurado, por baixo, demandaria bem mais força, avaliei. E fui.
- Nossa, ele vai por cima!; gritavam as meninas, admiradas.

Até então, o único que tinha coragem de ir por cima era o Adriano, o “chefe” da turma. Era também o único que decidia as brincadeiras e batia em todo mundo que discordasse. Surpreso com a reação geral, me envaideci: “Agora eu vou virar o chefe”, pensei, ambicioso.

Concluí a travessia com facilidade, de quatro, por cima do brinquedo. Quanto mais fingia não ter medo, mais ouvia os comentários elogiosos dos colegas, que observavam por baixo. O sabor da glória era doce. Porém, cheguei ao final. E só aí percebi que não tinha a menor ideia de como descer daquela geringonça. De quatro, não via qualquer possibilidade  de trocar as mãos pelos pés, e descer em pé daquele brinquedo do mal. Fiquei estarrecido, olhando para o chão. A distância que me separava dele começou a me dar vertigens. A Tia veio me oferecer as mãos para descer. Mas eu já era humano e a cobiça já me havia contaminado. Eu não iria, no finalzinho, desistir e descer como um bebê, no colo da Tia. “Não precisa, eu sei descer!”, respondi, muito macho. Como ela continuava na minha frente - e eu estava decidido a vencer -, não vi outra solução: pulei bem forte, por cima dela. Devo ter voado como uma perereca. Acho que sim, porque a primeira parte que senti tocar o chão foi a bochecha. Nunca vou esquecer do chão de cimento se aproximando muito veloz do meu rosto, até tudo ficar escuro. Do resto, não lembro direito. Alguns flashes da Tia me levando desesperada à enfermaria, meu rosto coberto de sangue em algum espelho, eu chorando enlouquecido e a minha mãe quase tendo um treco, quando apareceu para me buscar.

Ah, e jamais me tornei o chefe da turma.

Boa noite, São Paulo


Lembro que, no interior, a noite era o momento da vizinhança se reunir em frente às casas. A calçada que sediava o encontro indicava quem era o chefe de família mais popular da rua, que se sentava em uma cadeira, enquanto os outros o rodeavam sentados no chão. O lugar das crianças era num segundo círculo, mais distante. Era hora de contar piadas, mentiras, falar mal de quem não estivesse lá e de vez em quando fazer uma fogueira. Tarde da noite, ouvíamos histórias de terror que teriam acontecido na imensidão escura das plantações de cana-de-açúcar, na beira da estrada ou em algum terreno baldio. O fantasma do homem esquartejado, a loira que morrera noiva e outras que nos enchiam de medo e também de conforto por estarmos em grupo, protegidos. Era o momento de compartilhar a existência com os conterrâneos.
Hoje, na capital cinza, tenho como companhia os carros que passam lá embaixo, na avenida. São dez e meia da noite e eles ainda fazem barulho e filas no semáforo. Daqui a pouco eles se irão, deixando para trás apenas os colegas retardatários, solitários, alternativos, que trafegam na contramão da vida. Talvez levem uma cerveja na mão, talvez um Miles Davis ou um triste sertanejo no rádio, talvez uma dor no coração. Ou quem sabe não sintam nada disso e seja apenas eu que os empresto agora meu sentimento vazio.
Boa noite, São Paulo.

Coisas a fazer antes de morrer

Porque depois de morrer, fica difícil.

1. Invadir o campo de um estádio de futebol
No meio da final. Roubar a bola e chutar no gol. Se for pelado, vale também para a próxima vida.

2. Apaixonar-se à primeira vista, no metrô
Sacar um papel e, entre a Brigadeiro e a Vila Madalena, escrever uma poesia, lá, na hora, só para ela. Entregar na hora em que os dois forem tomar direções opostas - em suas mãos, tremendo.
Sem assinatura, sem deixar telefone. Não é um cartão de visitas, não tem contrapartida.
Ela vai sempre lembrar. Mas nunca poderá retribuir. Um genuíno presente.

3. Vestir-se de colegial por uma noite
Cabelos longos. Depilar as pernas e barriga. Maquiar-se. Fazer a sombrancelha. Treinar a pose. Não perder o rebolado ao ouvir as gracinhas de manobristas pela rua, a caminho da noitada.
Sentir-se frágil, insegura e o centro das atenções, igual a uma menina. Receber cantadas de bêbados, com elegância.

4. Uma grande cagada

5. Esquecer-se de absolutamente tudo
Mesmo que seja por só alguns segundos. Eles serão eternos, mesmo.

6. Ver o quanto aguenta
Manter os braços levantados, ficar embaixo d'água, ficar sem piscar, fazer flexões...
Mas é o quanto aguenta mesmo.

7. Passar um dia inteiro olhando bem nos olhos de todas as pessoas
O segurança, inclusive. O moleque de rua pedinte, inclusive. Uma perua bem vestida e arrogante. Uma doméstica invisível. Um idoso com um rosto escondido atrás de uma grande uva passa.

Maxizimização da minimização


Abaixo o trabalho desumanizador do pretenso burguês ascendente. Como um moribundo mantido vivo por equipamentos, o funcionário-mercadoria é mantido por missões, visões, DNAs, diferentes embalagens de uma mesma massa amorfa, num déjà-vu infinito: "busque sempre o melhor", "você pode tudo", "você será o número 1", "não admita menos do que a excelência".
A excelência é a obsessão pela perfeição, mas seu resultado é sempre imperfeição. Porque ser excelente é não poder ser melhor. É não ter possibilidades. Não ter tempo para surpresas. É o vazio. É ser vaidade, e só.

Pois eu digo: seja imperfeito, preguiçoso, feio, esquisito, pose mal, fale bobagem porque deu vontade. Seja o que for, mas seja humano, pelo amor de Deus. E diga pelo amor de Deus, de vez em quando, diga te amo mais que tudo nesse mundo, diga estou morrendo de medo ou qualquer outra expressão desesperada, exagerada, insensata, que te faça lembrar de sua fragilidade diante da imensidão do mundo.

Boquinha grátis

Sobre uma visita ao aconchego dos lares de um bairro ordinário. Usando apenas o nariz.

Pus os pés na saída do metrô e veio aquela preguiça. A caminhada até meu destino era longa e eu não tinha música para me desligar do mundo neste momento ruim. Saco. Sofrer antes é sofrer duas vezes, eu sei, mas é que aquele trecho do Jardim da Saúde passa da conta: no começo, barracas de churrasquinho fumacentas, lojas de CD tocando Bruno e Marrone no talo, ambulantes, pedintes e pedestres caóticos; ao final, a avenida Ricardo Jafet e seus caminhões, expressão suprema de nossa aberração urbana; e no meio... bem, no meio há casas. Ordinárias, nem tão feias assim. Na verdade, têm até um charme de simplicidade.

Perdido nestas divagações, após um tempo de marcha tive os sentidos invadidos. Pelo nariz. O cheiro era de macarrão. Daqueles da vovó, com molho barato, cozinhado com cebola e carinho. Uma delícia. Vinha da casa pela qual eu passava, o portão entreaberto. Eu quase podia ver através da parede a senhora pilotando o fogão quatro-bocas: uma mão na cintura, a outra mexendo a colher de pau, o ouvido atento às crianças e os olhos no Reynaldo Gianecchini. Alguém na sala pensava "Oba, macarrão". Umas duas casas à frente, era dia de sopa. De legumes com carne. E caldo de carne. Olhei para o relógio, e então me dei conta da minha sorte: eram 19h30, hora da janta! E eu tinha aquele caminho todo pela frente, para cruzar bem devagar, participando da cerimônia sagrada no aconchego daqueles lares. Sem ter que pedir licença nem rezar Pai Nosso. Um convidado especial. Provei muitos pratos, conheci muitas famílias.

O caminho que levaria meia hora levou quase uma. E o melhor prato da noite foi o arroz com batata-frita. Estava ótimo! Sorte do basset invocado que latia para mim do portão, e deve ter ficado com as deliciosas sobras.

Viva os 35 graus!

O termômetro marcava 35 graus naquela madrugada de um 30 de dezembro. Com a janela escancarada e sentado sobre a máquina de lavar eu mordiscava um sanduíche, quando ela apareceu pela primeira vez: a moradora da janela em frente. É verdade que não se pode morar em uma janela, mas ainda assim, ela era a moradora-da-janela-em-frente.

Pois ela entrou de repente no quarto, acendendo a luz. Era o último andar do prédio vizinho, a poucos metros de mim e meu pão e, com a janela totalmente aberta, ela cruzou de uma vez meu campo de visão, sem notar minha existência, tampouco meu susto. Presumo que voltava de uma festa, pelo vestido brilhante. Fiquei estarrecido durante aqueles dois ou três segundos que, na película de um filme, pareceriam ainda mais. Recobrada a consciência, num impulso instintivo, voei até o interruptor e apaguei a luz. Esperei, sem agachar nem me esconder. Pelo contrário: apagado no escuro, eu aguardava confortavelmente, a máquina de lavar era uma poltrona e meu pão era a pipoca. Generosa, ela reapareceu. Só com as roupas de baixo. O branco da lycra contrastava com a pele morena. A cintura poeticamente delineada dividia em dois o corpo de proporções áureas: nem grande, nem pequeno. Ideal. Sempre de costas, procurou algo na cama, achou e vestiu: um pijama de seda. Amarelo. Mas por cima da lingerie, que falta de cuidados com o conforto! Depois saiu. Mas deixou a luz acesa, então julguei que voltaria para o bis.

Creio que logo se arrependera do show deveras tímido porque, um ou dois minutos mais tarde, voltou. Na minha tela widescreen, de costas, tirou o pijama, sem suspense. E depois o sutiã. E depois tudo. Morena (já disse, eu sei). Analisou uma camiseta, levantando-a com os braços. Não, outra. Deixe-me ver... não, também. Tão feminina. Nesse decide-não-decide, ameaçava, mas não virava de frente. De repente virou-se de lado, de perfil. Caprichosamente, seu umbigo tocava a linha esquerda da janela, de modo que os seios se esconderam nos bastidores de um ponto cego. Alguém que a filmasse nua e depois censurasse colocando aqueles mosaicos nas partes íntimas não as delinearia com tanta precisão quanto a janela, irônica. Calmamente, virou-se de costas mais uma vez e finalmente vestiu outro pijama, azul. E apagou a luz. Nem foi até a janela para me dizer boa noite. Mas nem precisava: é como se o tivesse feito, já que começava aí um longo relacionamento.

Cinema asiático em 20 doses

Tá aí: as vinte chaves que abrem as portas do mundo do cinema asiático. Prepare o coração, que o danado vai sofrer.

1. Ninguém pode saber (Nobody knows; Dare mo shiranai)Hirozaku Koreeda, 2004, Japão - Classificação: obra-prima
Yuya Yagira, com seus 13 ou 14 anos, levou Melhor Ator Principal em Cannes
Download

2. Rashomon (Rashomon)Akira Kurosawa, 1951, Japão - Classificação: excelente
Leão de Ouro em Veneza, Oscar honorário de Melhor Filme Língua Estrangeira
Download

3. Tempo de viver (To live; Huozhe)Zhang Yimou, 1994, China/Hong Kong - Classificação: excelente
Grande Prêmio do Júri em Cannes

4. Primavera, verão, outono, inverno e... primavera (Bom Yeorum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom)Kim Ki-Duk, 2003, Coréia do Sul - Classificação: excelente

5. Lanternas vermelhas (Raise the red lantern; Da Hong Deng Long Gao Gao Gua)Zhang Yimou, 1991, China/Hong Kong - Classificação: excelente
Download

6. Casa vazia (3-Iron; Bin-jip)
Kim Ki-Duk, 2004, Coréia do Sul - Classificação: excelente

7. Amor à flor da pele (In the mood for love; Fa Yeung Nin Wa)Wong Kar-Wai, 2000, França/Hong Kong - Classificação: excelente
Prêmio de Melhor Ator em Cannes e Melhor Filme Estrangeiro, no César
Download

8. Era uma vez em Tóquio (Tokyo story; Tokyo monogatari)Yasujiro Ozu, 1953, Japão - Classificação: excelente

9. A cidade das tristezas (City of sadness; Beijing Changshi)Hou Hsiao-Hsien, 1989, Taiwan/Hong Kong - Classificação: obra-prima

10. Os sete samurais (Seven samurai; Shichinin no samurai)Akira Kurosawa, 1954, Japão - Classificação: muito bom
2 indicações ao Oscar, por Direção de Arte e Figurino

11. A viagem de Chihiro (Spirited Away; Sen to Chihiro no Kamikakushi)Hayao Miyazaki, 2001, Japão - Classificação: excelente
Oscar de Melhor Animação, Urso de Ouro em Berlim
Animação

12. Contos da lua vaga (Tales of a Pale and Mysterious Moon After the Rain; Ugetsu Monogatari )Kenji Mizoguchi, 1953, Japão - Classificação: obra-prima
Download

13. Ran (Ran)Akira Kurosawa, 1985, França/Japão - Classificação: muito bom
Oscar de Melhor Figurino, mais 3 indicações: Diretor, Direção de Arte e Fotografia
Download

14. Viver (To live; Ikiru)Akira Kurosawa, 1952, Japão - Classificação: excelente
Download

15. Oldboy (Oldboy)Park Chan-wook, 2003, Coréia do Sul - Classificação: excelente
Grande Prêmio do Júri, em Cannes
Download

16. Adeus, minha concubina (Farewell My Concubine; Ba Wang Bie Ji)Chen Kaige, 1993, China/Hong Kong - Classificação: excelente
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, Palma de Ouro em Cannes e 2 indicações ao Oscar
Download

17. O sonho azul (The blue kite; Lan Feng Zheng)Tian Zhuangzhuang, 1993, China/Hong Kong - Classificação: excelente

18. Whisper of the heart (Whisper of the heart; Mimi wo sumaseba)Yoshifumi Kondo, 1995, Japão - Classificação: muito bom
Animação

19. O túmulo dos vagalumes (Grave of the Fireflies; Hotaru no Haka)
Yoshifumi Kondo, 1995, Japão - Classificação: muito bom
Animação
Download

20. A mulher da areia (Woman in the dunes; Suna no onna)Hiroshi Teshigahara, 1964, Japão - Classificação: excelente
Prêmio Especial do Júri em Cannes
Download

Relato em Lyon, setembro de 2006

Talvez resida na surpresa o segredo de todo prazer do mundo. Uma criança sendo abraçada pelas primeiras vezes na vida, a sensação da língua tocada pela outra nos beijos iniciais, o cérebro sendo invadido por substâncias novas e desconhecidas, as primeiras vezes de algo que você já deve estar pensando. O fato é que estou morando há dez dias em Lyon, e tudo é como imaginei: muito além do que poderia ter imaginado. Tudo o que vejo, ouço, cheiro, é novo. 


É claro que praguejo contra os horários enxutos destes lioneses infiéis ao Deus Capitalismo: o almoço dura duas horas ou mais; o comércio fecha antes das 17h30; no centro, um estabelecimento exibe uma grande placa: "NON STOP", seu diferencial – o que significa apenas que não fecha para o almoço, e não que fique aberto até mais tarde; e a melhor: o comércio fecha para as férias escolares. Tipo, a farmácia da esquina sai de férias por um mês e meio, só. Numa cidade com mais de 1 milhão de habitantes.
Mas dez dias bastaram para eu perceber o lado bom dessa vida devagar: se você não fez suas coisas durante o dia, já era. No fim-de-semana, idem. "E o que tem de bom nisso?", talvez você pergunte. Ora, o que tem de bom é que não dá para fazer suas coisas fora do horário. Daí sua cabeça vai se ocupar de que? De tentar ser feliz. Ouvir música, arrumar a casa, dançar, ler, ir ao parque jogar pão para os patos, olhar o rio, os pássaros, correr atrás de uma bola, correr atrás de nada ou de qualquer coisa que sua mente despreocupada imaginar. Como escrever essas divagações, por exemplo.

Noite ordinária

O quente dos corpos que se haviam entrelaçado há poucos instantes ainda se pronunciava, pesado. Grosso. Mas era só calor físico. Não que exista uma forma de calor não-físico, que fique no ar, mas que, por falta de um nome específico, usa-se chamar aquela energia entre duas (ou mais) pessoas, aquele clima, de calor. Ou de frio, conforme o caso. E era justamente o caso. Esfriara instantaneamente, tão logo ela, mais uma vez, interrompeu-lhe o vigoroso impulso masculino. Ele mal entendera, na verdade mal ouvira suas explicações infantis, femininas, explicativas. O que ele entendia era a linguagem do corpo. E como. Reconheceria melhor uma mulher tocando-lhe o interior, de olhos fechados, ou sentindo-lhe o cheiro das axilas, do que lhe observando uma foto três por quatro.
“É a última vez. A última vez”, prometeu a si mesmo. Virou-se de costas para ela e fez menção de adormecer. Enquanto repetia a promessa em silêncio, como num mantra, mantinha impaciente um ouvido atento à respiração dela, que não tardou a se tornar pesada. Dormia, tranquila. Certa de que na manhã seguinte teria novamente a graça de sua paciência.
- Desta vez, não. Ah, não – pensou, quase alto.
Levantou-se bem devagar, como se equilibrasse uma bandeja cheia de taças - deve ter levado minutos nisto. Ainda assim, ela despertou. Deu uma desculpa qualquer sobre ir ao banheiro, nem precisou explicar o que faria com um cobertor em tal aposento, pois ela em seguida já voltou ao sono dos justos. Encontrou na sala um computador e começou a dedilhar sua confissão sobre a noite de fome. Ao terminar, publicou o texto na Internet e partiu, deixando abertos o computador e a porta do apartamento, mas levando o cobertor   a noite estava fria e a caminhada seria longa.