13.5.09

O trepa-trepa assassino


Eu tinha cinco anos, mas lembro perfeitamente. Foi no parquinho da escolinha. A Tia Lúcia, minha loira e magra professora, chamou-me de longe:
- Vem, Douglas, brincar no trepa-trepa! Só você ainda não veio!

Mas, só de olhar para o brinquedo assassino, eu sentia um pavor que me dava dor de barriga.
- Ah... não to com vontade!, menti.
- É fácil! Eu te ajudo, não precisa ter medo.

Toda a classe me olhava. E, na minha imaginação, se rasgavam de rir.
- Eu não tenho medo nenhum! Mas... não to com vontade.
- Ah, vem! Você consegue!

Exposto pela Tia, percebi que quanto mais resistisse, mais seria ridicularizado. O negócio era acabar com aquilo de uma vez. Julguei que seria mais fácil cruzar por cima. Fazê-lo dependurado, por baixo, demandaria muito mais força, avaliei. E fui.
- Nossa, ele vai por cima!; exclamavam as meninas, embasbacadas.

Até então, o único que tinha coragem de ir por cima era Adriano – o “chefe” da turma. Aquele que decidia as brincadeiras, e batia em todos que discordassem. Surpreso com a reação geral, logo me envaideci: “É hoje que eu viro o chefe”, pensei, ambicioso.

Concluí a travessia com facilidade, de quatro, por cima do brinquedo. Quanto mais fingia não ter medo, mais ouvia os comentários elogiosos de todos, que observavam por baixo. O sabor da glória era doce. Porém, cheguei ao final. E só então percebi que não tinha a menor ideia de como desceria daquela joça. De quatro, não via possibilidade alguma de trocar as mãos pelos pés, e descer em pé daquela geringonça. Fiquei estarrecido, olhando para o chão. A distância que me separava dele começou a me dar vertigens. A Tia veio me oferecer as mãos para descer. Porém, eu já era humano: a cobiça já me havia contaminado. Eu não iria, no finalzinho, jogar a vitória no lixo, desistindo e descendo como um bebê, no colo da Tia. “Não precisa, sei descer!”, respondi, machão. Como ela continuava na minha frente - e eu estava decidido a vencer -, não vi outra solução: pulei bem forte, por cima dela. Devo ter voado como uma perereca. Acho que sim, porque a primeira parte do corpo que senti tocar o chão foi a bochecha. Nunca esquecerei do chão de cimento se aproximando muito veloz de meu rosto , até tudo ficar escuro. Do resto, não lembro direito. Alguns flashes da Tia me levando desesperada à enfermaria. Meu rosto coberto de sangue, num espelho sei-lá-onde. Eu chorando, enlouquecido. E minha mãe quase desmaiando, ao aparecer para me buscar.

Ah, e jamais me tornei o chefe da turma.

3.4.09

A verdade, agrade a quem agradar


Recebi um email "A verdade sobre os signos". O texto descrevia cada um no esculacho: Gêmeos seria um bissexual promíscuo, Áries um fura-zoio, Virgem um traíra sujo, e por aí vai. Tudo pejorativo. Acho curioso quando alguém diz "agora direi a verdade (TUM!)" e, em seguida, desce uma enxurrada de negatividade. "A verdade (TUM!), doa a quem doer", e lá vem pessimismo. Até parece que vivemos num mundo encantado cheio de boas notícias, onde quem desenterra a dolorosa "verdade (TUM!)" é um heroi revolucionário.

- Peraí. Você disse "um mundo encantado cheio de boas notícias"?

É. Soa até estranho, não? Li uma pesquisa dizendo que, em média, uma pessoa transmite uma má notícia a sete pessoas, e uma boa a apenas duas. Prova flagrante de nossa paixão pelo ruim, pela tragédia. O podre dá o que falar. William Bonner, Datena e companhia sabem disso, e por isso o assunto nosso de cada dia é corrupção, crime e absurdos.

Não há novidade na "verdade (TUM!)"negativa. Ou você não sabia que a humanidade é egoísta, gananciosa, invejosa, cruel, etc.? Disto já estamos fartos. Os acusadores da "verdade (TUM!)" exploram o pessimismo não por serem revolucionários, mas preguiçosos. Por lhes faltar assunto.

A verdade que está nos faltando não é a ruim, mas a bela. Aquela que não dá ibope. Eu quero saber o que você tem feito de bacana, que boas ideias tem tido, como sonha melhorar o mundo, que piadas novas aprendeu. Sobre o seu lado mau, desencana. Este eu já conheço bem, amigo terráqueo.

Pode falar a verdade, sem medo. Aposto que vai agradar.

18.3.09

Einstein e os motoboys


Conduzia meu carro na Marginal Pinheiros, 90 por hora, velocidade máxima permitida. Na faixa imaginária existente entre as faixas, passa um motoqueiro, muito mais rápido. Em seguida outro, buzinando. Além de tenso, fiquei irritado: ora, quem pode ter tanta pressa que precisa ir mais rápido que 90? Arriscando-se a 120, terá ganhado, ao final da avenida, dois minutos - ou perdido todos os restantes da vida, no caso de um fatal acidente.

Lembrei-me de uma placa na estrada, "Quem corre chega mais rápido... ao céu" e, angustiado, agarrei firme no volante. Não iria querer sair da faixa, esbarrar numa moto e virar um homicida. Mesmo concentrado, reparei: na próxima moto, vi o rosto de Einstein, dentro do capacete! Atordoado, quase perdi a direção. Mal recobrei os sentidos, lá veio outra moto. E lá estava ela: a cara de Einstein, me zombando, língua para fora e tudo!

Horrorizado, pensei na teoria máxima do cientista alemão, a relatividade. Em minha interpretação grosseira: tudo é relativo. Quem hoje é considerado muito pobre vive em condições que, na Idade Média, eram tidas como normais, ou até luxuosas. Então o que mudou? As pessoa têm mais, então querem mais. Há algumas décadas, um "carrão" a 80 por hora estaria "queimando o chão". Hoje, uma bicicleta bem equipada chega a tal velocidade. Logo, um carro a 80 recebe buzinadas neuróticas por sua lerdeza. Tudo é relativo. As pessoas não querem ter bastante, querem ter mais. Mais do que os outros.

Meu devaneio durou apenas alguns segundos: logo, outro motoqueiro passou rasgando, a uns 110, trazendo minha atenção de volta. Passou a milímetros do corpo de um cão morto na pista. Assustado, reduziu a velocidade. Porém, tão logo emparelhei com ele, recobrou os sentidos e acelerou, sumindo no horizonte.

Vai com Deus, filho.

24.12.08

Boa noite, São Paulo

Lembro que, no interior, a noite era o momento da vizinhança se reunir em frente às casas. A calçada que sediava o encontro indicava quem era o chefe de família mais popular da rua, que se sentava em uma cadeira, enquanto os outros o rodeavam sentados no chão. O lugar das crianças era num segundo círculo, mais distante. Era hora de contar anedotas, mentiras, falar mal de quem não estivesse lá e de vez em quando fazer uma fogueira. Tarde da noite, ouvíamos histórias de terror que teriam acontecido na imensidão escura das plantações de cana-de-açúcar, na beira da estrada ou em algum terreno baldio. O fantasma do homem esquartejado, a loira que morrera noiva e outras horripilâncias nos enchiam de medo e também de conforto por estarmos em grupo, protegidos. Era o momento de compartilhar a existência com os conterrâneos.

Hoje, na capital cinza, tenho como companhia apenas os carros que passam lá embaixo, na avenida. São dez e meia da noite e eles ainda fazem barulho e filas no semáforo. Em trinta minutos, pontualmente, eles se irão, deixando para trás apenas os colegas retardatários, solitários, e outros ários que trafegam na mão correta da avenida, mas na contramão da vida. Talvez levem uma garrafa de cerveja na mão, talvez um Miles Davis ou um triste sertanejo no rádio, talvez uma dor no coração. Ou quem sabe não sintam nada disso e seja apenas eu que os empresto agora meu sentimento doloroso e vazio.

...

Agora, a avenida despovoada acena que o dia acabou. Há somente algumas décadas, acabava quando o Sol se despedia no horizonte, hoje acaba assim. Mas não reclamo. Pior vai ser quando, em breve, ele acabará só eventualmente, quando uma pane inesperada derrubar a conexão internet ou a energia elétrica, interrompendo nosso dia permanente.

Boa noite, São Paulo.

25.4.08

Coisas a fazer antes de morrer

Porque depois de morrer, fica difícil, né.

1. Invadir o campo de um estádio de futebol
No meio de uma partida final. Roubar a bola e chutar no gol.
Se for pelado, vale também para a próxima vida.

2. Apaixonar-se à primeira vista, no metrô
Sacar um papel e, entre a Brigadeiro e a Vila Madalena, escrever uma poesia, lá, na hora, só para ela. Entregar no momento em que os dois forem tomar direções opostas - em suas mãos, tremendo.
Não assinar. Não deixar telefone. Não é um cartão de visitas: não há contrapartida.
Ela vai sempre lembrar. Mas nunca poderá retribuir. Um genuíno presente.

3. Vestir-se de colegial por uma noite
Cabelos longos. Depilar as pernas e barriga. Maquiar-se. Fazer a sombrancelha. Treinar a pose. Não perder o rebolado ao ouvir as gracinhas de manobristas pela rua, a caminho da noitada.
Sentir-se frágil, insegura e o centro das atenções, tal qual uma menina. Receber cantadas de bêbados, com elegância.

4. Uma grande cagada
Mas grande, mesmo.

5. Esquecer-se de absolutamente tudo
Mesmo que seja por apenas alguns segundos. Eles serão eternos, mesmo.

6. Ver o quanto aguenta
Manter os braços levantados, ficar embaixo d'água, ficar sem piscar, fazer flexões...
Mas é o quanto aguenta MESMO.

7. Passar um dia inteiro olhando bem nos olhos de todas as pessoas
O segurança, inclusive. O moleque de rua pedinte, inclusive. Uma mulher bem vestida e arrogante. Uma doméstica invisível. Um idoso com um rosto escondido atrás de uma grande uva passa.

20.3.08

Tempos de maxizimização da minimização


Abaixo o trabalho escravo, intenso e mal remunerado, hábito da massa brasileira ignorante e pretensa burguês ascendente.
Como um moribundo mantido vivo por tubos, o homem-mercadoria executivinho é mantido por frases de efeito baratas, ditas "missões": "você tem que querer mais", "você pode, você chega lá", "busque a excelência".
Blá. A excelência é a busca da perfeição que resulta na mais completa imperfeição. Ser excelente é não poder ser melhor. É a inexistência de possibilidades. É não ter tempo para surpresas, que são o segredo da felicidade. Excelência é vazio. É não ser nada. É ser vaidade, e só vaidade.
Seja imperfeito, preguiçoso, relaxado. Seja feio, estranho, pose mal para a foto, fale besteira porque deu vontade. Seja o que for, mas seja humano, pelo amor de Deus.
E diga "pelo amor de Deus", de vez em quando. Diga "te amo mais que tudo nesse mundo", diga "estou morrendo de medo" ou qualquer outra expressão desesperada, exagerada, insensata, que te faça lembrar de sua fragilidade diante da imensidão do mundo.

13.3.08

Rombo IV

Eu ia escrever sobre o último e deplorável filme de Sylvester Stallone, mas este vídeo hilariante me poupou o trabalho: http://charges.uol.com.br/2008/02/16/tobby-entrevista-john-rombo/
Divirta-se!

5.3.08

Amor entre homens

O amigo estava em Buenos Aires. O amigo, não um amigo. É que, beirando os 30 anos, ele, solteiro, via seu receio de "ficar para tio" crescer à medida em que crescia o tamanho de sua testa. Uma testa imperialista, que ia impiedosamente anexando territórios abandonados por fios de cabelo desertores, sob os anúncios proféticos de uma peste de nome Calvície. Como o amigo compartilhava da mesma situação e receio, pouco a pouco iam se tornando uma espécie de irmãos. Gradualmente, instalava-se uma relação que transcendia o rotulável.

Pois quando ele digitou em seu aparelho os 8 números do celular do amigo, eram 5 horas e 16 minutos da madrugada de 1º de março. Foi atendido pela caixa postal. Sem motivo, decidiu apagar a mente e acender o coração, exatamente como se houvesse um interruptor para cada uma destas operações. E disse, sem pensar, para aquele receptor de mensagens robótico:

- Poxa, queria tanto falar contigo neste exato momento, e o máximo que consigo é falar com esta máquina... mas, pensando bem, tudo bem. Tendo estes segundos para ouvir minha própria voz, acho que acabo de descobrir: na verdade, só ia te dizer coisas banais, mesmo. Nada justificadamente importante a uma hora dessas. Aliás, que bom essa vontade de te dizer coisas cada vez mais banais. Quanto maior a banalidade, maior nossa proximidade.

E desligou o telefone. E percebeu que o amor pode ter mais versões do que aquela que aprendera com a novela, nos idos de seus 9 anos de idade.

25.2.08

Cinema asiático em 20 doses

Tá aí: as vinte chaves que abrem as portas do mundo do cinema asiático.
Vai lá, pode ir tranquilo, que não dói... bem, ok, na verdade, dói, sim. É um mundo meio sofrido. Mas vale a avuntura, garanto!

1. Ninguém pode saber (Nobody knows; Dare mo shiranai)
Hirozaku Koreeda, 2004, Japão - Classificação: obra-prima
Yuya Yagira, com seus 13 ou 14 anos, levou Melhor Ator Principal em Cannes
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2. Rashomon (Rashomon)
Akira Kurosawa, 1951, Japão - Classificação: excelente
Leão de Ouro em Veneza, Oscar honorário de Melhor Filme Língua Estrangeira
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3. Tempo de viver (To live; Huozhe)
Zhang Yimou, 1994, China/Hong Kong - Classificação: excelente
Grande Prêmio do Júri em Cannes

4. Primavera, verão, outono, inverno e... primavera (Bom Yeorum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom)
Kim Ki-Duk, 2003, Coréia do Sul - Classificação: excelente

5. Lanternas vermelhas (Raise the red lantern; Da Hong Deng Long Gao Gao Gua)
Zhang Yimou, 1991, China/Hong Kong - Classificação: excelente
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6. Casa vazia (3-Iron; Bin-jip)
Kim Ki-Duk, 2004, Coréia do Sul - Classificação: excelente

7. Amor à flor da pele (In the mood for love; Fa Yeung Nin Wa)
Wong Kar-Wai, 2000, França/Hong Kong - Classificação: excelente
Prêmio de Melhor Ator em Cannes e Melhor Filme Estrangeiro, no César
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8. Era uma vez em Tóquio (Tokyo story; Tokyo monogatari)
Yasujiro Ozu, 1953, Japão - Classificação: excelente

9. A cidade das tristezas (City of sadness; Beijing Changshi)
Hou Hsiao-Hsien, 1989, Taiwan/Hong Kong - Classificação: obra-prima

10. Os sete samurais (Seven samurai; Shichinin no samurai)
Akira Kurosawa, 1954, Japão - Classificação: muito bom
2 indicações ao Oscar, por Direção de Arte e Figurino

11. A viagem de Chihiro (Spirited Away; Sen to Chihiro no Kamikakushi)
Hayao Miyazaki, 2001, Japão - Classificação: excelente
Oscar de Melhor Animação, Urso de Ouro em Berlim
Animação

12. Contos da lua vaga (Tales of a Pale and Mysterious Moon After the Rain; Ugetsu Monogatari )
Kenji Mizoguchi, 1953, Japão - Classificação: obra-prima
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13. Ran (Ran)
Akira Kurosawa, 1985, França/Japão - Classificação: muito bom
Oscar de Melhor Figurino, mais 3 indicações: Diretor, Direção de Arte e Fotografia
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14. Viver (To live; Ikiru)
Akira Kurosawa, 1952, Japão - Classificação: excelente
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15. Oldboy (Oldboy)
Park Chan-wook, 2003, Coréia do Sul - Classificação: excelente
Grande Prêmio do Júri, em Cannes
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16. Adeus, minha concubina (Farewell My Concubine; Ba Wang Bie Ji)
Chen Kaige, 1993, China/Hong Kong - Classificação: excelente
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, Palma de Ouro em Cannes e 2 indicações ao Oscar
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17. O sonho azul (The blue kite; Lan Feng Zheng)
Tian Zhuangzhuang, 1993, China/Hong Kong - Classificação: excelente

18. Whisper of the heart (Whisper of the heart; Mimi wo sumaseba)
Yoshifumi Kondo, 1995, Japão - Classificação: muito bom
Animação

19. O túmulo dos vagalumes (Grave of the Fireflies; Hotaru no Haka)
Yoshifumi Kondo, 1995, Japão - Classificação: muito bom
Animação
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20. A mulher da areia (Woman in the dunes; Suna no onna)
Hiroshi Teshigahara, 1964, Japão - Classificação: excelente
Prêmio Especial do Júri em Cannes
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É isso aí, boa viagem.
E não se esqueça de votar na enquete sobre filmes asiáticos, aí à direita.

24.2.08

Cinema asiático e o fascínio do que é e do que poderia ser

Qual é o fascínio que o cinema asiático causa em nós, ocidentais?

O encanto do cinema depende fundamentalmente do quanto acreditamos que a história é ou poderia/deveria ser real. O "nível de acreditância" é o maior termômetro do sucesso de um filme. A maioria dos filmes se situa em um ponto entre dois extremos: ultra-realismo e fantasia. Um exemplo oportuno de ultra-realismo é "Tropa de Elite": um recorte nu e cru de uma realidade, do tipo câmera na mão. Mas não só isso: é um zoom numa realidade a que normalmente jamais teríamos acesso – por isso ultra-realismo. É o que dá a sensação de exploração a um mundo desconhecido - diferente, por exemplo, da história de alguém que faça a cama e escove os dentes, e fim. Apesar do nível de acreditância ser altíssimo, não traria nenhuma sensação de aventura, já que é algo a que temos acesso todos os dias.

Já no outro extremo, a fantasia, fica de lado a preocupação em parecer objetivamente real, e o importante é o que poderia/deveria ser. O encanto é de outra natureza: sabemos que a história não poderia acontecer objetivamente, mas a empatia se dá no nível da imaginação e da representação: acreditamos que alguém possa acreditar naquilo – o sonho de uma população inteira, às vezes. Neste caso, alcançar um nível de acreditância satisfatório é tarefa bem mais complicada.

No cinema asiático, porém, tudo se mistura. No contato com uma cultura tão distante e desconhecida, não somos capazes de situar bem a história entre os extremos ultra-realismo e fantasia. Justamente por isso, o nível de acreditância pode chegar ao céu: o que vemos pode tanto ser como as coisas realmente se passam ou apenas a representação do imaginário de um povo. Nos dois casos, porém, a viagem por dentro de uma cultura tão misteriosa é certamente excitante. Um ótimo exemplo: Lanternas Vermelhas (Raise the red lantern, de Zhang Yimou, 1991) - um dos filmes que catapultou mundialmente a estrela Gong Li - se passa numa espécie de castelo de ares feudais pertencente a um "mestre" (nomeação genérica de nobreza) chinês que possui quatro esposas, cada uma habitante numa casa do castelo, que é povoado de serviçais e de rígidos e sagrados costumes tradicionais, datados de "muitas gerações": ao entardecer, todas as esposas aguardam em frente a suas casas ao anúncio de quem será a escolhida da noite para fazer companhia ao mestre. Acendem-se, então, lanternas vermelhas na casa da felizarda, que é presenteada com massagens nos pés e mimos de serviçais. Dia após dia.

Para nós, atmosfera, comportamento e costumes tão enigmáticos tanto podem ser puramente reais - oriundos de uma cultura desconhecida - quanto mera representação simbólica dos valores de todo um povo. Não sabemos. E ainda bem que não, pois é justamente aí que reside o encanto: pode ser, e talvez realmente seja. Desejamos que seja e desejamos que fosse. Realidade e imaginação se misturam.

Deu pra entender? Não muito? Então dê uma conferida na lista dos 20 melhores filmes asiáticos, do próximo post. Tenho certeza de que vai ficar pra lá de claro.

21.2.08

Karl

Sua esquisitice começava pelo nome: Karl. Se fosse numa turma de Filosofia ou Ciências Políticas, normal. Mas era num escritório de engenharia. De “médio porte”. Para os 30 e poucos empregados, seus pais só podiam ser muito ignorantes: escolheram um nome “americano”, mas se enganaram com a grafia tão grosseiramente.

No abafado escritório, desenhistas, projetistas e puxa-saquistas passavam o dia quase em silêncio, ouvindo Alfa FM e curvados sobre pranchetas. O patrão, alto, com seus 40 anos, bigode e olhos azuis, exercia o poder como um coronel: passava a todos mais trabalho do que seria possível fazer. Assim, ao fim de cada dia, havia justificativas para cada um ouvir ofensas sobre sua competência, inteligência e dignidade. A maioria apresentava algum efeito colateral desta tortura: doenças do estômago, tendinites, bursites, depressão.

Era natural que buscassem algo em que extravasar. E esta função – ser extravasado – cabia ao ingênuo Karl, que se sentava no canto mais ao fundo. Tipo o canto do castigo, fosse numa escola. Seu nome não era o único motivo de chacota : quando cruzava o escritório, andava tão esquisito que parecia tentar dar os passos com as duas pernas simultaneamente, arrastando os pés. Mantinha sempre os lábios entreabertos num sorriso mole e bobo, como se babasse. A cabeça corcundada à frente e a camisa sempre da mesma cor que a calça, bege, completavam sua figura bizarra. Os olhos claros e cabelos loiros davam a ele um ar de personagem esquizofrênico de filme europeu. Era casado com a enfermeira que o tratara quando esteve no hospital psiquiátrico. Era ela que cortava seu cabelo - repleto de falhas.

- Ai, que nojo tenho desse tarado; repetia a secretária, embora ninguém jamais tenha notado qualquer atitude promíscua dele.

Era o alvo de todas as piadinhas. Caía nas mais batidas, como aquela do “Sabe o Mário?”. Para evitar contato com os demais, não ia à cozinha coletiva aquecer sua refeição. Aquecia sobre o monitor do computador - levava a manhã inteira.

Por essas e outras, considerado mentalmente incapaz, era deixado em paz pelo patrão. Não era sobrecarregado e nem levava esporros. Era o “café-com-leite”. E, provavelmente porque eu não o zombava, creio que via em mim um aliado, talvez até um amigo.

Quando voltei das férias coletivas, voltei de saco cheio. Cheguei uma hora atrasado, fui direto à sala do chefe e, girando a chave do carro - emprestado por meu pai -, disparei:

- To indo embora, viu.
- O que?.. Mas por quê?!
- Porque esta espelunca é uma merda e você, um opressor.
- Enlouqueceu? E eu faço o que com seus projetos? Quem vou pôr no seu lugar?!
- Isso já não é problema meu.
- Isto é um absurdo! Você está agindo como um moleque!
- Ué... E o que mais você pensou que eu fosse, com 18 anos?

Seu rosto ficou vermelho. Roxo, quase. Ele queria me esmurrar, eu via em seus olhos trêmulos. E tinha tamanho para isso, mas já não tinha idade. Quando se tem 18 anos, uma atitude como esta faz sua adrenalina subir ao céu: eu delirava.

- Pois você saiba que nunca mais vai voltar!
- Disto, você pode ter certeza; finalizei, com o sorriso da vingança tardia e triunfante.

Quando saí da sala, todos tinham percebido o que sucedera, mas ninguém se atreveu a levantar os olhos: todos empranchetados, encomputadorados, ocupados. Esvaziei minha gaveta num minuto e, quando já estava de saída, Karl se levantou, veio a mim e disse baixinho:

- Agora você entendeu. Aqui, só tem duas formas de sobreviver: uma, é fazer os outros de besta. E, além do chefe, você é o primeiro que vejo fazer isso.
- E qual é a segunda?
- Se fazer de besta.

17.2.08

Boquinha grátis

Sobre uma visita ao aconchego das cozinhas e salas das famílias de um bairro ordinário. Usando apenas o nariz.

Tão logo pus os pés na escada rolante de saída do Metrô, veio aquela preguiça desanimadora, ao imaginar os 20 minutos de caminhada até meu destino. Ainda mais sem música, esta eterna companheira de momentos entediantes. Saco. Eu sei, sofrer por antecedência é sofrer duas vezes. Mas é que aquele trecho do bairro da Saúde é particularmente desagradável: no começo, barracas de churrasquinho fedorentas, lojas de CD tocando Bruno e Marrone a centenas de decibéis, ambulantes, pedintes e pedestres caóticos; ao final, a horrorosa e encaminhonada avenida Ricardo Jafet, ícone da aberração latino-urbana; e ao meio... bem, ao meio há casas. Ordinárias. Nem tão feias assim. Na verdade, têm até um charme singelo de classe média baixa.

Perdido nestas divagações, após um tempo de marcha tive os sentidos invadidos. Pelo nariz. O cheiro era de macarrão. Daqueles da vovó, com molho barato, cozinhado com cebola e carinho. Uma delícia. Vinha da casa pela qual eu passava, o portão entreaberto. Eu quase podia ver através da parede a senhora pilotando o fogão quatro bocas: uma mão na cintura, a outra mexendo a colher de pau, o ouvido cuidando das crianças e a cabeça pensando no Reynaldo Gianecchini. Alguém na sala certamente pensava "Oba, macarrão". Umas duas casas à frente, era dia de sopa. De legumes com carne. E caldo de carne. Olhei para o relógio, e só então me dei conta de minha sorte tamanha: eram 19h30, hora da janta! E eu tinha aquele caminho todo pela frente, para cruzar bem devagar, para participar da cerimônia sagrada no aconchego daqueles lares. Sem precisar pedir licença, rezar Pai Nosso, sem ter que atrapalhar. Mais que um convidado, um filho adotivo. Provei muitos pratos, conheci muitas famílias.

E o caminho que deveria levar 20, levou bem uns 40, diga-se 50 minutos. E o melhor prato da noite foi o arroz com batata-frita, com certeza. Estava ótimo! Sorte do basset salsichão que latia para mim do portão, e que deve ter ficado com as deliciosas sobras.

13.2.08

O eterno homem-garoto

Música: Crash Into Me
De quem: Dave Matthews Band
Pra quando: sozinho, em casa ou carro; a dois

Poder-se-ia dizer que foi inspirada na baladinha Garotos, hit de Leoni dos 90 - não fosse a discrepância de qualidade entre as duas. Crash Into Me conduz com melodia, letra e ritmo a uma viagem de adoração ultra platônica a uma certa musa: sentimento que as mulheres dificilmente vão compreender - e que os os homens, farão de imediato.
Levado por aquele lado moleque, presa fácil dos encantos femininos, existente em todos os homens, ele implora: "Hike up your skirt a little more, show your world to me", algo como "Levante sua saia um pouquinho mais, mostre seu mundo pra mim" - tal qual uma criança implorando à mãe por um doce, refém do desejo. O pobre rapaz confessa sua fragilidade "in a boy's dream", assume estar preso à sua adorada: "you've got your ball, you've got your chain", a venera pela janela, impotente e confessa que será 'apressado': "If I've gone overboard, then I'm begging you to forgive me
for my haste".
Excelente. Verdadeira. Masculina, do início ao fim.

Ouça: Crash Into Me
Veja: Crash Into Me
Leia: Crash Into Me



10.2.08

Pandora, apenas uma lenda

Dificilmente você vai encontrar um site com nome mais adequado que o Pandora: inspirado na deusa da mitologia grega que portava a caixa de Pandora, de onde teriam saído todos os males da humanidade, o site faz muito jus ao nome, usando e abusando da mãe de todas as infelicidades: a esperança.
Para quem não conheceu, Pandora.com era uma rádio digital que surgiu há alguns anos com o espetacular recurso de criar um DNA musical do usuário: você se registrava, ouvia as músicas do acervo ultra-gigantesco, e opinava: "Gostei", "Gostei um pouco", "Hm... não". A partir daí, o site propunha outras músicas que tivessem um grau de parentesco com aquilo que você gosta. Genial, simplesmente.
Só que saiu do ar, de uma hora para outra, reservando-se apenas a quem pagasse ou fosse estadunidense. Foi uma tragédia grega para os muitos usuários que haviam sucumbido aos encantos da filha de Zeus.
Há poucos meses atrás, ressucitou, desta vez no endereço www.globalpandora.com. A euforia foi geral: todo mundo avisou todo mundo, e há quem disse que se decretaria um novo feriado de Páscoa. Porém, tão logo deixou o gostinho na boca da galera, já tratou de sair do ar novamente, zombando de nosso tendão de Aquiles - a esperança.
É. Triste sina a de ser um mortal, joguete dos deuses e da malvada esperança.

ps: para os orfãos desolados, restou esta rádio aqui: http://www.musicovery.com. Que não tem nem metade do brilho. Paciência. Virtude divina.

7.2.08

Tudo é dor

Quando eu tinha 12 anos, “internet” não passava de um termo enigmático, um ente misterioso e assustador, talvez um primo do Homem do Saco. Telefone celular, então, um capricho de ricaços. Anos mais tarde, quando começou a se popularizar entre a classe média alta, as colunistas sociais condenavam à morte utilizá-lo em público. Uma atitude rude, pura falta de classe e etiqueta, ficar falando sozinho na frente de desconhecidos! Quem se lembra disso sabe que o acesso à informação era algo como as navegações na Idade Média: uma penosa e incerta aventura, sem nenhuma garantia de sucesso.
Para completar, minha mãe jamais realizou seu sonho de presentear os filhos com uma Enciclopédia Barsa, de modo que meu contato mais profundo com a filosofia vinha de minha preciosa coleção de CDs da Legião Urbana. O mestre guia de minhas reflexões era um intelectual chamado Renato Russo. Aluno de escola estadual paulistana, eu nunca tinha de estudar ou fazer lição de casa (em contrapartida não aprendi nada, naturalmente), de modo que as tardes eram longas e eu passava horas e horas explorando os encartes de meus queridos álbuns. Eu os lia, passava a mão, cheirava, ouvia junto, decorava todas as letras. Em um texto simpático ao final do encarte de “As quatro estações”, a Legião Urbana dizia que o trecho “Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor” da canção “Quando o sol bater na janela do teu quarto” fora extraído de uma Doutrina de Buda que eles encontraram por acaso em um quarto de hotel. Não dei muita atenção àquelas palavras, ditas santas, que não pareciam ter grande importância.
Pois bem, passaram-se 14 anos. No último carnaval, decidi me isolar em um Retiro Espiritual de Silêncio, num templo budista. Qual não foi minha surpresa quando, logo nas primeiras horas da experiência, com 26 anos de idade, uns 10 de internet e 7 de USP, me lembrei súbita e nitidamente dos versos que o pensador Renato Russo tomara emprestado do budismo. E mais, eles fizeram sentido de uma só vez.

Tudo é dor. E nosso grito ao sentir dor, além de ser uma forma de pedir socorro, é também um protesto de revolta, uma declaração de que não aceitamos aquele sofrimento. Uma negação da dor. Pois ocorre que os 4 dias de um feriado de carnaval, sozinho, são suficientes para que você passe por muitas oportunidades de sentir dor, esteja onde estiver. Calado, você não recorre ao protesto do “grito”. É proibido se queixar ao vizinho que você dormiu mal, que está com dor nas costas, tropeçou, está com frio ou que a vida é uma merda. Nada. Daí, só resta ter que encarar a dor de frente. Dizer “qual é a sua?” para a dita cuja. E compreender a dor deve mesmo ser o melhor jeito de se conviver com essa nossa companheira, tão onipresente quanto o ar.
Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor. E olha que eram apenas as primeiras horas desta experiência que ainda vai render muitos outros posts.

6.2.08

Manchetes econômicas e comparações bizarras


Os paulistanos devem se lembrar do tablóide ultra-sensacionalista Notícias Populares, que estampava imagens de cabeças abertas por balas, corpos desfigurados por violências as mais diversas, aberrações humanas e inumanas, histórias de chacinas. Quando interromperam sua circulação, em 2000 e alguma coisa, há quem acreditou que o sensacionalismo tinha seus dias contados.
Ledo egano: as páginas de economia têm tratado de cobrir o vazio deixado pelo saudoso NP. Nas bolsas de valores, responsáveis pela movimentação da riqueza do mundo, os investidores se guiam por especulações, achismos, esperismos e disse-que-me-disses. Cada mínimo fenômeno deve ser hipertrofiado para ganhar destaque no noticiário, em meio à selva de informações que só vão mostrar se eram ou não relevantes meses - quando já não adianta mais: se um investimento era vantajoso, provavelmente não é mais. Se um evento era sinal de que vai estourar uma bolha, é porque a bolha já estourou.
Com muito senso de humor, os cadernos de economia de grandes jornais e portais passam peroba em seus rostos e capricham para sensacionalizar. O resultado são manchetes que vão do bizarro ao hilário:

"Bolsas americanas têm o pior dia do ano" - no dia 6 de fevereiro. É como dizer 'esta foi a pior coisa que me aconteceu hoje', às 8h da manhã de algum dia... (Folha, 06/02)

"Bolsa perde 6,88% no quinto pior janeiro de sua história" - qual a gravidade do 5º pior janeiro?! (UOL, 31/12)

"Bovespa registra pior mês desde maio de 2006", ou seja, o pior de 20. (Folha, 01/02)

"Bancos vivem pior trimestre dos últimos dois anos" - o que quer dizer o pior dos últimos 8. (portal Bolsa Total)

Tenho certeza que você se lembra de alguma, ainda que vagamente. Pois bem, solicito a colaboração de todos para este compilado de comparações para lá de bizarras. Manchetes sobre "pior trimestre do ano" (o ano tem quatro), "pior mês do semestre" e afins: seu lugar é aqui.
Caros leitores, conto com vossas memórias.

27.1.08

Guias da imensidão cibernética

Saiu na Folha esta semana e para mim, analógico, é novidade: o Google não está sozinho a nos guiar em meio aos intermináveis caminhos da internet. E nem haveria de estar, em plena maior revolução democrática da informação já vista.
So, let's cut to the chase: aí estão alguns sites que, em vez de tentar bater de frente com o todo-poderoso mecanismo algorítmico do Google, oferecem meios alternativos de busca na web:

1) Aqueles que acessam vários bancos de dados ao mesmo tempo, tipo metabuscadores:

www.dogpile.com
www.clusty.com
www.sidekiq.com

2) Com ajuda humana, incluindo um chat, onde pode-se obter ajuda:

www.chacha.com
www.mahalo.com

3) Pra mim o mais legal, que tenta encontrar o sentido do que você digitou, em vez de fazer uma soma macacóide das palavras:

www.hakia.com

4) Por último, um que separa os resultados por sites, vídeos, blogs, imagens, etc.

www.searchmash.com

Boa procura!

22.1.08

Viva os 35 graus!

O relógio marcava 1h35 da manhã do dia 31 de dezembro. O calor era tanto que se algum termômetro acusasse menos de 35 graus eu julgaria uma brincadeira de mau gosto. Com a janela escancarada e sentado sobre a máquina de lavar eu mordiscava um sanduíche, quando ela apareceu pela primeira vez. Ela, a moradora da janela em frente. Não, não cabe aqui chamá-la moça, mulher, garota ou rapariga, já que nestas condições tudo o que importa é que ela era a moradora-da-janela-em-frente – ainda que não se possa morar em uma janela.

Pois ela entrou de repente no quarto, acendendo a luz. Era o último andar do prédio vizinho, a poucos metros de mim e meu pão e, com a janela totalmente aberta, ela cruzou de uma vez meu campo de visão sem mesmo notar minha expressão de susto. Presumo que voltava de uma festa, pelas roupas. Permaneci estarrecido durante aqueles dois ou três segundos que, na película de um filme, durariam muito mais. Recobrada a consciência, num impulso instintivo e intuitivo, voei até o interruptor e apaguei a luz. Esperei, sem agachar ou me esconder numa posição imoral. Pelo contrário: apagado no escuro, eu aguardava confortavelmente, como numa poltrona de cinema. Generosa, ela reapareceu. Somente com as roupas de baixo. O branco da lycra contrastava com a pele morena. A cintura poeticamente delineada dividia em dois o corpo de proporções áureas: nem grande, nem pequeno. Ideal, somente. Sempre de costas, procurou algo na cama, achou e vestiu: um pijama de seda. Amarelo. Mas por cima da lingerie, que falta de cuidados com o conforto! Depois saiu do quarto. Como deixara a luz acesa, julguei que voltaria para o bis.

Creio que logo se arrependera do show deveras tímido porque, um ou dois minutos mais tarde, voltou. Na minha tela widescreen, de costas, tirou o pijama, sem suspense. E depois o sutiã. E depois tudo. Morena (já disse, eu sei). Analisou uma camiseta, levantando-a com os braços. Não, outra. Deixe-me ver... não, também. Tão feminina. Nesse decide-não-decide, ameaçava, mas não virava de frente. De repente virou-se de lado, de perfil. Caprichosamente, seu umbigo tocava a linha esquerda da janela, de modo que os seios se esconderam nos bastidores de um ponto cego. Alguém que a filmasse nua e depois censurasse colocando mosaicos nas partes íntimas não as delinearia com a mesma precisão com que a janela o fez, irônica. Calmamente, virou-se de costas mais uma vez e finalmente vestiu outro pijama, azul. E apagou a luz. Nem foi até a janela para me dizer boa noite. Mas nem precisava: é como se o tivesse feito, já que começava aí um longo, longo relacionamento.

Namorar está fora de moda?

Meus amigos têm reclamado da crescente dificuldade em arranjar uma namorada estável. É “fácil arranjar alguém para levar para a cama, mas muito difícil encontrar uma mulher séria”. Segundo o pessoal da terceira idade, não foi sempre assim. No modelo social de algumas décadas atrás, alguém que não “se arranjava logo” era mal visto. Sobretudo as mulheres, que corriam o sério risco de ficarem "para tia”. Após a revolução sexual e a independência feminina, o sustento financeiro, antes importante motivo de se casar, hoje é buscado independentemente do matrimônio. Para mulheres e homens. Vamos experimentando, enquanto não chegam hora e pessoa certas.

Enquanto isso, a tendência ao individualismo em uma época que valoriza o mérito pessoal e a extrapolação da auto-estima a níveis estelares, faz distanciar mais ainda as relações. No trabalho, você é exigido a se superar o tempo todo e obrigado a desejar chegar ao topo – local solitário onde só cabe uma pessoa. As auto-ajudas proliferam com a promessa da cura por si só, vinda de uma certa força pessoal de cada um. Dois grandes pilares da união estável – a conveniência financeira e o suporte emocional, portanto, estão em cheque. Os indivíduos são treinados a, desde cedo, serem “fortes”, não precisarem deles.

Para agravar a situação, os avanços na informática tratam de pulverizar os relacionamentos em diferentes substratos: um pouco no MSN, onde somos alguém, um pouco no Orkut, onde já somos outros, um pouco com as pessoas de uma comunidade, um pouco com outro grupo e etc. Entre as muitas comunidades, escolhe-se ficar com um pouco de todas as que parecerem interessantes. Ao se distribuir os relacionamentos em diferentes fontes, uma eventual crise de relacionamento com alguém se torna bem menos devastadora - diferente de alguns anos atrás, quando imperava o hábito ancião de cultivar poucos e profundos relacionamentos. Agora, perder alguém não é nenhum desastre: é só achar outro, outra. Vem fácil, vai fácil. Tem muita gente um pouco disponível. Mas pouca gente muito disponível. Não se atinge mais a profundidade, que vem da convivência de um relacionamento estável. Como no caso da família, por exemplo.

Mas nem tudo está perdido para os "antiquados". Na revolução cultural dos anos 70, emblemada pelo movimento hippie, acreditava-se que, com a renovação dos valores de individualismo, a família desapareceria – o que não ocorreu, muito pelo contrário. Da mesma forma, é possível que a angústia que vivemos hoje, fruto da incapacidade de se entregar e cultivar um relacionamento profundo, nos impulsione a buscar uma nova mudança de valores, e, quem sabe, o namoro - esse mesmo, meio careta, meio exclusivo - pare de desaparecer. Oxalá.

2.1.08

Antes fosse um dia de fúria

Quando era jovem, ia mudar o mundo. Tinha sonhos, ideais e um calor ardendo nos olhos. Tinha a vida pela frente, idéias fervilhando no cérebro e mais fãs que fios de cabelo. E tinha muito cabelo.

Hoje, após viver 20 e tantos anos, o corpo acusa ter vivido 30, a mente 60 e a alma diz que já morreu. Menos do que ter um anseio dilacerante de partir da vida, não anseia mais nada. A idéia de saltar para o infinito pela janela do 22º andar lhe causa tanto calafrio quanto a de escovar os dentes. Embora ainda deseje ardentemente a presença dela, fora tão subtraído de sua essência de homem que nada mais pode, além de balbuciar esquisitices ininteligíveis. Nada pode além de sonhar acordado, sonhar adormecido e sonhar semi-acordado, estado em que passa a maior parte do longo-curto tempo.

Apenas a humilhação de ser rejeitado é capaz de provocar alguma sensação. Um ódio frívolo, não resistente à mais singela reflexão de que o ódio a quem o rejeita não mais é que o ódio à própria insignificância. Se antes transtornava os ouvidos que absorvessem o impacto de uma visão torta e profunda de tudo o que existe e o que não existe, hoje até a fumaça de um cigarro ou as teclas de um computador parecem penar a ter paciência para testemunhar a confusão que se passa atrás de seus olhos.

Entre desejar partir e não desejar mais nada, vai ficando, escondido, abandonado por si mesmo, vítima de pensamentos aberrantes, desejos reprimidos, uma sede de amor, um rio de amor desperdiçado, destilado, envelhecido e transformado em veneno na química reprimida de veias cansadas de tanto ódio estéril.

Pedir socorro seria vão, ele sabe. Quem é posto ao mundo com um cromossomo X, outro Y e um pedaço de carne entre as coxas, leva de brinde a obrigação social de socorrer, não de ser socorrido. Se não podes salvar a ti mesmo, então apodreças, ó exemplar infeliz de tua espécie.